sábado, 19 de julho de 2014

"Contextualização” e a Corrupção da Igreja

25 09 2011
John MacArthur
Deveria ser claro que os “marketers” da igreja moderna não podem olhar para o Apostolo Paulo em busca de aprovação da sua metodologia ou reclama-lo como pai da sua filosofia. Apesar de ele ter ministrado para os mais vis pagãos por todo o mundo romano, Paulo nunca adaptou a igreja de acordo com os gostos da sociedade secular. Ele não se atreveria sequer a pensar alterar quer a mensagem quer a natureza da Igreja. Cada uma das igrejas que ele fundou tinham a sua personalidade e conjunto de problemas, mas os ensinamentos de Paulo, a sua estratégia, e acima de tudo a sua mensagem permaneceram imutáveis durante o seu ministério. O seu meio de ministrar foi sempre pregar – A proclamação directa das verdades bíblicas.
Em oposição, a “contextualização” do evangelho hoje em dia infectou a igreja com o espírito da idade. Escancarou as portas da igreja para o mundanismo, superficialismo, e em alguns casos grosseiros, uma atmosfera de “show”. Agora o mundo define os objectivos da igreja.
Isto é claramente demonstrado num livro do James Davison Hunter, professor de sociologia na Universidade da Virginia. Hunter entrevistou os alunos em colégios e seminários evangélicos, e concluiu que o Cristianismo evangélico mudou dramaticamente nas ultimas três décadas. Ele descobriu que os jovens evangélicos têm-se tornado significativamente mais tolerantes com actividades já vistas como mundanas e imorais – como fumar, utilizar Marijuana, ver filmes para maior de idade, sexo pré-matrimonial. Hunter escreveu,
   As fronteiras simbólicas que dantes definiam a propriedade moral para o protestantismo conservador perderam uma medida de clareza. Muitas das distinções que separavam a conduta cristã do “mundanismo” foram desafiadas senão mesmo destruídas. Até as palavras mundano e mundanismo em apenas uma geração perderam a maior parte do seu significado tradicional … o significado de mundanismo de facto perdeu a sua importância para a próxima geração de evangélicos. (Hunter, Evangelicalism: The Coming Generation, 63)
O que Hunter notou entre estudantes evangélicos é um reflexo do que aconteceu à igreja evangélica inteira. Muitos cristãos professos parecem importar-se mais com o que o mundo pensa deles do que o próprio Deus pensa deles. As igrejas estão tão empenhadas em tentar agradar aos descrentes que muitos se esqueceram que o seu primeiro objectivo é agradar a Deus (2 Cor. 5:9). A igreja foi tão sobre-contextualizada que tornou corrompida pelo mundo.
Tradução: Fábio Silva

Quem foi Jesus Cristo na opinião de Flávio Josefo (37-100dC)?

maio 26, 2011 por Testemunha de Cristo
Flávio Josefo é considerado como um dos maiores historiadores judeus de sua época, e além de escrever sobre a História dos Judeus e suas guerras, também escreveu sua autobiografia, na qual se descreve como filho de Matias o sacerdote judaico, nascido em Jerusalém, instruído pela torá e adepto do farisaísmo (JOSEFO, Flávio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.476-495). O seu testemunho é importante, pois é provavelmente o único relato sobrevivente de uma testemunha ocular da destruição de Jerusalém.
Josefo é considerado como um revolucionário judeu que rendeu-se à supremacia romana trocando o suicídio pela lealdade a Roma. Por sua demonstração de lealdade, Vespasiano não apenas o recebeu como cidadão romano, mas o patrocinou como historiador.
No seu livro Antiguidade dos Judeus, que é normalmente datado na década de 90dC tem duas citações interessantes. A primeira faz clara referência a Tiago “irmão de Jesus chamado Cristo” (GEISLER, Norman, Não tenho fé suficiente para ser ateu – Vida, 2006, pp.227), veja:
“Anano, um dos que nós falamos agora, era homem ousado e empreender, da seita dos saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos os judeus e os mais rigorosos no julgamento. Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não havia chegado, para reunir um conselho diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verdadeiro amor pela observância das nossas leis” – (JOSEFO, Flavio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.465)
Dois fatos são interessantes nessa citação: (1) Confirma uma clara declaração das escrituras: Jesus tinha um irmão chamado Tiago (Gl.1.19); (2) Ele era reconhecido como Cristo, outra afirmação clara das escrituras (Mt.16.16).
A segunda declaração de Josefo a respeito de Jesus é ainda mais explícita e por isso, muito controversa. Pouco antes da declaração supracitada, ele também afirma:
“Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considera-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Ele era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome” – (JOSEFO, Flávio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.418)
Essa citação tem sido criticada como sendo impossível de ter sido proferida por um judeu-romano escrevendo sobre a história dos judeus. Normalmente apela-se par ao fato de que o texto acima é fruto de uma corrupção cristão tardia, especialmente pelo fato de que Orígenes (185-253dC) atesta que Josefo não aceitava a Messianidade de Jesus. Entretanto, essa declaração não é inteiramente verdadeira, observe a declaração de Orígenes:
“Tamanha era a reputação de Tiago entre as pessoas consideradas justas, que Flávio Josefo, que escreveu Antiguidade dos Judeus em vinte livros, quando ansiava por apresentar a causa pela qual o povo teria sofrido grandes infortúnios que até mesmo o tempo fora destruído, afirma que essas coisas aconteceram com eles de acordo com a Ira de Deus em consequência das coisas que eles se atreveram a fazer contra Tiago o irmão de Jesus que é chamado Cristo. E o que é fantástico nisso é que, apesar de não aceitar Jesus como Cristo, ele deu testemunho da justiça de Tiago” – (Orígenes, Origen’s Commentarary on Matthew, IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 9, pp.424)
Considerando o fato de que Orígenes atesta que Josefo o chama de Cristo (como vimos que o faz quando fala sobre Tiago), embora não o considerasse como tal, não é impossível que a citação seja de fato verdadeira. Porém, devemos reconhecer que algumas das declarações desse texto atribuído a Josefo parecem por demais cristãs para serem de um fariseu, e entendemos que não é à toa que tenha sido considerada uma interpolação.
Edwin Yamauchi, professor emérito de história na Universidade de Miami, comenta essa citação de Josefo e explica que é possível perceber onde estão as interpolações, ou supostas alterações cristãs tardias. Ele argumenta que era incomum para um cristão referir-se a Jesus Cristo apenas como um homem sábio, o que sugere que o texto nesse caso é de Josefo. Por outro lado, parece improvável que um judeu sugeriria que ele não era simplesmente um homem. Nesse caso, Yamauchi atesta que esse é um possível caso de interpolação cristã tardia. Sobre a expressão “Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios”, Yamauchi defende que está em conformidade com o estilo e vocabulário de Josefo, mas a conclusão “Ele era o Cristo” parece direta demais para um judeu (STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo, Vida, 1998, 104).
Contudo, ainda que tal citação de Josefo possa ser tomada com algumas ressalvas, é importante lembrar que uma versão árabe do texto de Josefo no mesmo trecho, que embora tenha as partes mais criticadas ausentes, apresenta aspectos interessantes sobre Cristo, observe:
“Nessa época havia um homem sábio chamado Jesus. Seu comportamento era bom, e sabe-se que era uma pessoa de virtudes. Muitos dentre os judeus e de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos condenou-o à cruficicação e à morte. E aqueles que haviam sido seus discípulos não deixaram de seguí-lo. Eles relataram que ele lhes havia aparecido três dias depois da crucificação e que ele estava vivo [...] talvez ele fosse o Messias, sobre o qual os profetas relatavam maravilhas” – (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.449)
Após apresentar essa versão do texto de Josefo, em outro livro Geisler explica sua preferência por essa leitura:
“Existe uma versão dessa citação na qual Josefo afirma que Jesus era o Messias, mas a maioria dos estudiosos acredita que os cristãos mudaram a citação para que fosse lida dessa maneira. De acordo com Orígenes, em dos pais da igreja nascido no século II, Josefo não era cristãos. Desse modo, é improvável que ele pudesse afirmar que Jesus era o Messias. A versão que citamos aqui vem de um texto árabe que, acredita-se, não foi corrompido” – (GEISLER, Norman, Não tenho fé suficiente para ser ateu – Vida, 2006, pp.227)
Diante dessas informações, devemos ainda lembrar os leitores que a credibilidade de Josefo como historiador já foi colocada a prova diversas vezes. Em um provocativo livro chamado Jesus e Javé, o judeu ateu Harold Bloom logo de início apresenta sua visão acerca de Cristo e Josefo:
“Não há fatos comprovados acerca de Jesus de Nazaré. Os poucos fatos que constam na obra de Flávio Josefo, fonte da qual todos os estudiosos dependem, são suspeitos, pois o historiador era José bem Matias, um dos líderes da Rebelião Judaica, que salvou a própria pele por ter bajulado os imperadores da Dinastia Flaviana: Vespasiano, Tito e Domício. Depois que um indivíduo proclama Vespasiano como Messias, ninguém deve mais acreditar no que tal pessoa escreve a respeito do seu povo. Josefo, mentiroso inveterado, assistiu, tranquilamente à captura de Jerusalém, à destruição do Templo e à matança dos habitantes” – (BLOOM, Harold, Jesus e Javé, os nomes divinos – Objetiva, 2006, pp.31)
Nesse momento temos que fazer uma importante pergunta: “O que ganharia esse judeu traidor nacional em mencionar a figura de Jesus?”. Considerando o fato de que era financiado por Roma, era de se esperar que sua visão pudesse ter sido comprada pelos romanos e sua história tenha cedido em alguns lugares à tentação de ser conscientemente impreciso o que o levou a ganhar a fama de mentiroso inveterado.
Contudo, aos olhos de Roma, essa nova “religião” tinha claras tendências de ser facciosa ao Império em função do seu estranho conjunto de doutrinas e sua objetiva recusa de adorar ou a César ou aos deuses romanos. Com isso, era de se esperar que ele suprimisse qualquer evento, fato ou personagem que pudesse o colocar em oposição com seus patrocinadores.
Portanto, é evidente que não haveria qualquer ganho para Josefo em apresentar a pessoa de Jesus, e talvez, por essa mesma razão, é que ele tenha escrito tão pouco a seu respeito. Mas, ainda assim, com o testemunho de Josefo, nós podemos reconhecer algumas das características de Cristo e sua história, tal como contada pelos evangelistas:
(1) Jesus foi um homem considerado sábio;
(2) de bom comportamento e virtudes;
(3) tinha um irmão chamado Tiago
(4) teve muitos seguidores de diferentes nacionalidades;
(5) foi crucificado por Pilatos;
(6) por crucificação;
(7) nem por isso seus discípulos o abandonaram;
(8) eles relataram a ressureição de Cristo após três dias;
(9) além de uma possível relação com o Messias anunciado pelas escrituras hebraicas.

Ano 70 d.C. Tito destrói Jerusalém - História da Igreja





Erguido no fórum de Roma, o Arco de Tito celebra a vitória em JerusalémGéssio Floro amava o dinheiro e odiava os judeus. Como procurador romano, governava a Judéia e pouco se importava com as sensibilidades religiosas. Quando a entrada de impostos era baixa, ele se apoderava da prata do Templo. Em 66, quando a oposição cresceu, ele enviou tropas a Jerusalém para crucificar e massacrar alguns judeus. A ação de Floro foi o estopim para uma revolta que já estava em ebulição havia algum tempo.
No século anterior, Roma não tinha tratado os judeus de maneira adequada. Primeiramente, Roma havia fortalecido o odiado usurpador Herodes, o Grande. Apesar de todos os belos edifícios que construíra, Herodes não conseguiu lugar no coração das pessoas.
Arquelau, filho de Herodes e seu sucessor-, era tão cruel que o povo pediu a Roma que lhe desse um alívio. Roma atendeu a esse pedido enviando diversos governadores: Pôncio Pilatos, Félix, Festo e Floro. Eles, assim como outros, tinham a tarefa, nada invejável, de manter a paz em uma terra bastante instável.
O espírito independente dos judeus nunca morreu. Eles olhavam com orgulho para os dias dos macabeus, quando se livraram do jugo de seus senhores sírios. Agora, suas desavenças mesquinhas e o fabuloso crescimento de Roma os colocavam novamente sob o comando de mãos estrangeiras.
O clima de revolução continuou durante o governo de Herodes. Os zelotes e os fariseus, cada um à sua maneira, queriam que as mudanças acontecessem. O fervor messiânico estava em alta. Jesus não estava brincando quando disse que as pessoas falariam: "'Vejam, aqui está o Cristo!' ou Ali está ele!'". Esse era o espírito da época.
Foi em Massada (formação rochosa praticamente inexpugnável, que se eleva próximo ao mar Morto, onde Herodes construiu um palácio e os romanos ergueram uma fortaleza) que a revolta judaica teve seu início e um fim trágico.
Inspirados pelas atrocidades de Floro, alguns zelotes ensandecidos decidiram atacar a fortaleza. Para surpresa de todos, eles a conquistaram, massacrando o exército romano que estava acampado ali.
Em Jerusalém, o capitão do Templo, quando interrompeu os sacrifícios diários a favor de César, declarou abertamente uma rebelião contra Roma. Não demorou muito para que toda a Jerusalém ficasse alvoroçada, e as tropas romanas fossem expulsas ou mortas. A Judéia se revoltou, e a seguir a Galiléia. Por um breve período de tempo, parecia que os judeus estavam virando o jogo.
Céstio Galo, o governador romano da região, saiu da Síria com 20 mil soldados. Cercou Jerusalém por seis meses, mas fracassou, deixando para trás seis mil soldados romanos mortos e grande quantidade de armamentos que os defensores judeus recolheram e usaram.
O imperador Nero enviou Vespasiano, general condecorado, para sufocar a rebelião. Vespasiano foi minando a força dos rebeldes, eliminando a oposição na Galiléia, depois na Transjordânia e por fim na Idu-méia. A seguir, cercou Jerusalém.
Contudo, antes do golpe de misericordia, Vespasiano foi chamado a Roma, pois Nero morrera. O pedido dos exércitos orientais para que Vespasiano fosse o imperador marcou o fim de uma luta pelo poder. Em um de seus primeiros atos imperiais, Vespasiano nomeou seu filho, Tito, para conduzir a guerra contra os judeus.
A situação se voltou contra Jerusalém, agora cercada e isolada do restante do país. Facções internas da cidade se desentendiam com relação às estratégias de defesa. Conforme o cerco se prolongava, as pessoas morriam de fome e de doenças. A esposa do sumo sacerdote, outrora cercada de luxo, revirava as lixeiras da cidade em busca de alimento.
Enquanto isso, os romanos empregavam novas máquinas de guerra para arremessar pedras contra os muros da cidade. Aríetes forçavam as muralhas das fortificações. Os defensores judeus lutavam durante todo o dia e tentavam reconstruir as muralhas durante a noite. Por fim, os romanos irromperam pelo muro exterior, depois pelo segundo muro, chegando finalmente ao terceiro muro. Os judeus, no entanto, continuaram lutando, pois correram para o Templo — sua última linha de defesa.
Esse foi o fim para os bravos guerreiros judeus — e também para o Templo. Josejo, historiador judeu, disse que Tito queria preservar o Templo, mas os soldados estavam tão irados com a resistência dos oponentes que terminaram por queimá-lo.
A queda de Jerusalém, essencialmente, pôs fim à revolta. Os judeus foram dizimados ou capturados e vendidos como escravos. O grupo dos zelotes que havia tomado Massada permaneceu na fortaleza por três anos. Quando os romanos finalmente construíram a rampa para cercar e invadir o local, encontraram todos os rebeldes mortos. Eles cometeram suicídio para que não fossem capturados pelos invasores.
A revolta dos judeus marcou o fim do Estado judeu, pelo menos até os tempos modernos.
A destruição do Templo de Herodes significou mudança no culto judaico. Quando os babilônios destruíram o Templo de Salomão, em 586 a.C, os judeus estabeleceram as sinagogas, onde podiam estudar a Lei de Deus. A destruição do Templo de Herodes pôs fim ao sistema ‘sacrificai judeu’ e os forçou a contar apenas com as sinagogas, que cresceram muito em importância.
Onde estavam os cristãos durante a revolta judia? Ao lembrar das advertências de Cristo (Lc 21.20-24), fugiram de Jerusalém assim que viram os exércitos romanos cercar a cidade. Eles se recusaram a pegar em armas contra os romanos e retiraram-se para Pela, na Transjordânia.
Uma vez que a nação judaica e seu Templo tinham sido destruídos, os cristãos não podiam mais confiar na proteção que o império dava ao judaísmo. Não havia mais onde se esconder da perseguição romana

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Teologia Reformada - Defesa do Evangelho:

A vontade de Deus é que todos os cristãos sejam prósperos?



Cada vez mais cristãos por todo o mundo creem que a prosperidade material é um direito de todos os cristãos. Eles creem que Deus espera que eles peçam por ela e a antecipem como um cumprimento certo da sua promessa. Não há dúvidas de que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento ensinam que o fiel será abençoado por Deus.

Mas essa bênção necessariamente sempre incluirá prosperidade material? Todos os cristãos podem ter a expectativa de se tornarem ricos? Ao olharmos para a Bíblia, tal expectativa é dissipada.

Em primeiro lugar, Paulo frequentemente mostrava que os seus sofrimentos não influenciavam negativamente sua plenitude de vida. Em suas epístolas, ele apresenta o seu próprio sofrimento como parte da evidência de que ele era abençoado e chamado por Deus (por exemplo 2Co 4.8-18; 6.3-10; 11.13-33; 12.1-10; Gl 6.17). Em determinada ocasião ele descreveu a si mesmo como pobre, “mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10). Em Efésios, escrevendo da prisão, Paulo menciona a riqueza cinco vezes — referindo-se ao evangelho e a todos os seus tesouros. Ele próprio era um pobre prisioneiro privado de muitas necessidades humanas básicas, mas via a si mesmo como sendo rico.

Em Filipenses, também escrevendo da prisão, Paulo disse a respeito das suas necessidades financeiras:

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez. (Fp 4.11-12)

Ele infere que riqueza não é necessariamente um sinal da bênção de Deus, mas contentamento sim. De fato, nessa epístola, as palavras alegria, alegrai-vos, alegres e contentes aparecem 16 vezes. Ele diz que devemos nos alegrar sempre no Senhor (Fp 4.4). Essa também é a epístola que fala a respeito da paz de Deus que excede todo o entendimento (4.7). Então contentamento, paz e alegria caracterizam um cristão verdadeiramente rico.

Há alguns anos, eu fiz um estudo de todos os pontos do Novo Testamento onde Jesus é apresentado como um modelo para seguirmos. Dos 29 textos que eu estudei mais profundamente, quatro eram afirmações gerais chamando os leitores a seguirem Cristo; dois eram a respeito de perdoar como Jesus perdoou (Ef 4.32; Cl 3.13) e dois eram a respeito de mansidão e bondade (2Co 10.1; 11.17). Os outros 21 eram a respeito do exemplo da servidão de Jesus e dos seus sofrimentos.¹ Então, quando encoraja a generosidade, Paulo dá o exemplo de Jesus e diz: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). O próprio Jesus disse: “A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Na parábola do homem rico e do pobre mendigo Lázaro coberto de chagas, é o mendigo que vai para o céu e o rico que sofre no inferno (Lc 16.19-31). Nós podemos seguramente concluir que o Novo Testamento não inclui o sucesso material em sua descrição básica do que significa ser um seguidor de Cristo.
Mais perigo do que bênção

Terceiro, o Novo Testamento parece mostrar a riqueza mais como um perigo do que como uma bênção. Ele enfatiza os perigos mais do que o desejo da riqueza. Jesus determinou o tom dessa ênfase com a frase: “E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Lc 18.24-25). Essa declaração é citada em todos os três evangelhos sinóticos. Mas com que frequência ouvimos pregadores repeti-la hoje? Jesus realça o seu ensino a respeito dos perigos da riqueza em sua parábola sobre o rico fazendeiro que conseguiu riqueza suficiente para garantir uma aposentadoria confortável. Ele é chamado de “louco” em sua morte. Jesus explica dizendo: “Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12.16-21). Em seu chamado evangelístico para os futuros discípulos negarem a si mesmos, tomarem cada um a sua cruz e segui-lo, Jesus adverte: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Se negligenciarmos esse aspecto do chamado de Cristo na nossa pregação do evangelho, seremos culpados de distorcer o evangelho assim como os liberais de uma geração passada.

Quando olhamos 1 Timóteo 6, encontramos mais advertências sobre os perigos da riqueza. Paulo diz que é correto querer necessidades básicas como comida e roupas: “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1Tm 6.8). Além dessa necessidade, a riqueza não é grande coisa. Paulo diz: “Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele” (6.6-7). Não é essencial que sejamos ricos, mas é essencial que sejamos piedosos e contentes. Em outro lugar, Paulo diz que ele está contente mesmo diante do sofrimento: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10). A ideia de força na fraqueza é outra doutrina bíblica negligenciada hoje em dia.

Voltemos às advertências. Em 1 Timóteo 6.9-10, Paulo diz:

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Outra forte advertência está na parábola do semeador, onde Jesus fala da semente lançada entre espinhos: “Os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.19). Essas duas fortes advertências nos dizem como o desejo por riquezas pode causar um enorme prejuízo nos enganando para que abandonemos o caminho de Deus pelo caminho da suposta prosperidade. Infelizmente, hoje encontramos muitas pessoas que caíram exatamente nessas armadilhas. Elas arruinaram sua vida espiritual e condenaram a si mesmas a uma vida infeliz. À luz de advertências como essas a respeito dos perigos do desejo de ser rico, aliadas ao fato de tantas pessoas terem suas vidasarruinadas dessa maneira, os pregadores devem ter cuidado de não inflamar esse desejo ao prometer riquezas para os seus ouvintes.
Tesouros no céu

Ao mesmo tempo, a Bíblia não tem uma abordagem completamente negativa quanto à questão da riqueza. Jesus disse: “Ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mt 6.20). Essa declaração é feita no contexto do que fazer com a riqueza. Usando uma linguagem familiar às pessoas do mundo dos negócios, Jesus aconselha que façamos o mais inteligente investimento no lugar mais seguro de todos: o céu. Pregadores devem encorajar os cristãos a buscar a prosperidade eterna.

Em 1 Timóteo 6, Paulo pede que os ricos sejam ricos em generosidade: “Que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida” (6.18-19). Nós investimos no Banco do Céu quando damos ao necessitado. Observamos anteriormente que Paulo disse em 1 Timóteo 6 que riqueza é menos importante que piedade e contentamento. Agora ele está dizendo que generosidade abundante também é importante. Os muitos ensinos na Bíblia a respeito de dar mostram que para um cristão bíblico, essa é uma das grandes ambições na vida. Paulo diz que os cristãos macedônios estavam “pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos” (2Co 8.4).

Quando insta os cristãos coríntios a contribuir com as necessidades da igreja em Jerusalém, Paulo diz: “Nosso desejo não é que outros sejam aliviados enquanto vocês são sobrecarregados, mas que haja igualdade” (2Co 8.13, NVI). Em um mundo de evidente desigualdade, nós damos generosamente para trazer alguma medida de justiça e igualdade. Essa necessidade urgente de justiça no mundo levou muitos cristãos a tomar uma decisão de adotar um estilo de vida simples — evitando a extravagância e dando tanto quanto possível para a obra de Deus e para os necessitados. Como alguém disse certa vez: “Nós vivemos de maneira simples para que outros possam simplesmente viver”. Em apoio a essa ideia de um estilo de vida simples, nós remetemos à declaração de Jesus: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” (Mt 6.19).
Exemplo e Herói
Sexto, muitos dos heróis e devotos no Novo Testamento eram pobres. Jesus é o nosso principal exemplo e herói. Ele se tornou pobre para que nós pudéssemos nos tornar ricos (2Co 8.9). Ele “se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7). Alguns dizem que Jesus tomou a maldição para que não precisássemos viver sob ela, e portanto, não sofreremos como ele sofreu. Mas em ambas passagens Jesus nos é apresentado como um exemplo a ser seguido. Paulo até mesmo diz que deseja ter “a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte” (Fp 3.10). Há uma profundidade de unidade com Cristo que experimentaremos somente quando sofrermos como ele sofreu. E para nós, união com Cristo é a maior riqueza.
Muitos dos seguidores seguidores de Jesus no Novo Testamento eram pobres. Os macedônios eram heróis porque deram, apesar de sua pobreza. “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade” (2Co 8.1-3). A generosidade desses pobres cristãos é descrita utilizando a palavra riqueza. Em uma passagem de repreensão à igreja por considerar o rico como superior ao pobre, Tiago diz: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?” (Tg 2.5). Os crentes pobres são, na verdade, ricos!
Nas cartas às sete igrejas em Apocalipse, apenas duas igrejas não recebem uma repreensão. E ambas são descritas como não possuindo o que o mundo considera como sucesso material. A primeira é a igreja em Esmirna. O anjo fala de sua “pobreza”, e imediatamente diz: “Mas tu és rico” (Ap 2.9). A segunda é a igreja em Filadélfia, que é descrita como tendo “pouca força” (Ap 3.8). Elas eram duas raras exceções de igrejas tendo estilos de vida aprovados por Deus em um tempo de grande compromisso. E elas eram pobres e fracas! Não é interessante como cristãos pobres nessas passagens são descritos em termos que sugerem que eles eram ricos? Esse senso de ser rico constitui um importante aspecto da identidade de um cristão. Se estamos felizes com a nossa identidade, então certamente seremos pessoas felizes.
A igreja mãe em Jerusalém consistia principalmente de pessoas pobres. Então outras igrejas tinham que ajudá-la. Não há nada que diga que eles eram pobres por que havia algo de errado em suas crenças ou ações. Era um tempo de dificuldade econômica em Jerusalém, isso pelo fato de que muitos aposentados haviam perdido seus benefícios de aposentadoria quando se tornaram cristãos. Portanto, os cristãos em Jerusalém tinham grandes necessidades econômicas, as quais cristãos de outras partes do mundo atenderam através de suas doações missionárias.
É verdade que o Antigo Testamento promete prosperidade como uma das bênçãos da fidelidade a Deus (por exemplo Dt 28.11). Mas devemos lembrar que tais promessas foram feitas a uma nação justa sob a Antiga Aliança. O Antigo Testamento frequentemente descreve a dor dos indivíduos justos daquela nação que tinham dificuldade com o fato de que os perversos estavam prosperando enquanto eles não. Muitos dos lamentos nos Salmos mencionam essa dificuldade. O Salmo 73 é um clássico. Aqui, a dificuldade de Asafe com relação à sua falta de prosperidade comparada à prosperidade do perverso só é resolvida quando ele percebe que Deus julgará o perverso com justiça. Os livros de Jó e Habacuque ressaltam a fé de pessoas genuinamente piedosas que honram a Deus, recusando desistir de confiar nele em meio a terrível sofrimento. O Antigo Testamento, então, não garante ao justo a prosperidade. De fato, assim como o Novo Testamento, ele também adverte as pessoas frequentemente quanto aos perigos da prosperidade (por exemplo Dt 6.10-25; 8.11-20; 32.15-18).
Por último, a história mostra que alguns dos maiores períodos de crescimento da igreja aconteceram quando os cristãos eram realmente pobres e passavam dificuldade. Isso aconteceu recentemente na China, no Nepal e na Coreia (nos primeiros anos de crescimento da igreja), e agora no Irã, onde há crescimento significativo. Muitas qualidades, tais quais confiança como de uma criança, são mais fáceis para o pobre desenvolver em sua vida. Essa é uma razão pela qual Jesus disse que é tão difícil para o rico entrar no reino de Deus.
O plano de Deus
Não há dúvida de que a Bíblia ensina que pessoas que tem fé e são ricas têm um importante papel no plano de Deus. Algumas pessoas exemplares na Bíblia, como Abraão (Gn 13.2), Barzilai (2Sm 19.32), a mulher sunemita que ajudou Elias (2Rs 4.8), e José de Arimateia (Mt 27.57), foram especificamente descritas como sendo ricas. Após dizer que o rico não deve ser orgulhoso, Paulo diz que “Deus [...] tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1Tm 6.17). Ter prazer nas coisas que o dinheiro pode comprar não é necessariamente errado. Ao mesmo tempo é significativo que cada uma dessas quatro pessoas prósperas e piedosas mencionadas tenham sido elogiadas por sua generosidade.
Cristãos ricos podem honrar a Cristo especialmente ao serem humildes, generosos e piedosos enquanto são ricos. Cristãos pobres podem honrá-lo especialmente sendo contentes, cheios de fé, generosos e piedosos enquanto são pobres. É evidente que, na Bíblia, a riqueza é bem menos importante que o contentamento, a alegria, a paz, a santidade, o amor e a generosidade. Pessoas com tais características são, de acordo com a Bíblia, verdadeiramente prósperas, quer sejam economicamente ricas ou pobres.²
—
² Veja Jonathan Lunde e Craig Blomberg, Christians in an Age of Wealth: A Biblical Theology of Stewardship (Grand Rapids: Zondervan, 2013) para uma discussão sobre muitas questões discutidas neste artigo. [em inglês]
Por: Ajith Fernando; Original: Is It God’s Will For All Christians To Be Wealthy?; Copyright © 2014 The Gospel Coalition, Inc. Todos os direitos reservados; Website: TheGospelCoalition.org.
Tradução: Alan Cristie; Original: A vontade de Deus é que todos os cristãos sejam ricos? (2/2); Copyright © Voltemos ao Evangelho; Website: VoltemosAoEvangelho.com

¹ Veja Ajith Fernando, “Jesus: The Message and Model of Mission,” Global Missiology for the 21st Century, editado por William D. Taylor, (Grand Rapids: Baker Academic, 2000), pp. 209-210. [em inglês]

    Por: Ajith Fernando; Original: Is It God’s Will For All Christians To Be Wealthy?; Copyright © 2014 The Gospel Coalition, Inc. Todos os direitos reservados; Website: TheGospelCoalition.org.

    Tradução: Alan Cristie; Original: A vontade de Deus é que todos os cristãos sejam ricos? (1/2); Copyright © Voltemos ao Evangelho; Website: VoltemosAoEvangelho.com

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Teologia Reformada - Defesa do Evangelho:

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