sábado, 3 de março de 2012


OS CAMINHOS DE UMA BIO-HERESIA

Por HÉLIO DE SOUZA

Acervo: Fernando Silva

Site: www.icp.com.br

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem Deus o criou, macho e fêmea os criou”.

O mundo tem de conviver hoje com duas afirmações conflitantes: a Palavra de Deus (que ensina que o homem fora criado por Deus conforme a sua imagem e semelhança) e a afirmação de Charles Darwin (que diz que a origem do deu-se por um lento processo de evolução, indo das formas mais simples às mais complexas, tornando o homem no que é hoje).

Na época de Darwin, suas teorias causaram grandes conflitos religiosos. Os debates calorosos entre a ciência e a religião chegaram a provocar mortes. De ambos os lados da disputa, homens de mentes brilhantes tentavam, a seu modo, provar a veracidade de sua crença. Mas hoje, quase 150 anos após a publicação do livro "Origem das espécies por meio de seleção natural" ou "A preservação de raças favorecidas na luta pela vida" (1859), temos condições de avaliar, de forma mais exata, os efeitos dessas idéias. Neste artigo, não temos a intenção de denunciar a falta de base científica da evolução, mas, sim, analisar em que ponto a visão darwiniana sobre a vida entra em choque com as afirmações bíblicas e os resultados decorrentes dessas afirmações.

DETERMINISMO BIOLÓGICO

Determinismo biológico é a idéia que afirma que todo agir humano é determinado por fatores inerentes à sua natureza. Ou seja, que todas as suas vontades e ações não são livres (no sentido de uma escolha racional e espontânea), mas, sim, o resultado de mecanismos biológicos. Enquanto a Bíblia ensina que ao homem cabe escolher suas ações, tornando-se responsável por tudo o que faz (como podemos ver em certos textos: "Manteiga e mel comerá, até que ele saiba rejeitar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem..." (Is 7.15-16). Ou: "Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente" (Dt 30.19), a teoria da evolução forneceu ao homem uma justificativa para o seu procedimento. Ao invés de ver no pecado uma distorção do propósito inicial de Deus, enxerga certos comportamentos como resultado da herança animal, uma força sobre a qual os homens não têm domínio nem escolha.

A edição especial da revista "Veja" (Dez/2000) publicou o artigo do professor de fisiologia da Universidade da Califórnia, Jared Diamond, a respeito do comportamento sexual humano. A revista resume assim a tese do dr. Jared: "Diamond sustenta a tese polêmica de que o comportamento sexual humano... não vai mudar muito no futuro" . Segundo ele, as pessoas carregam esse determinismo em seus genes. Por mais que a vida se tome mais rica tecnologicamente e as sociedades mudem com o passar dos anos, "as pessoas tendem a se comportar no campo sexual com base nas experiências evolutivas acumulada pela espécie".

Então, de repente, o adultério não pode mais ser explicado como desvio da vontade divina, como corrupção da natureza humana, mas como herança animal evolutiva. O ser humano passa a ter uma justificativa biológica para o seu comportamento infiel, baseado em fatores determinados em seus genes, resultado daquilo que o professor Jared denominou "condicionamento evolutivo" que determina "a imutabilidade do comportamento dos seres humanos". Hoje, não o adultério e violência podem ser explicados como sendo uma herança animal, ou seja, seqüelas advindas da época em que os homens grunhiam e rosnavam.

Segundo o famoso cientista Carl Segan, em artigo publicado na revista "Superlnteressante", o nosso comportamento no esporte, mesmo o mais violento, está relacionado aos nossos genes. Diz ele: "Mas, se a nossa paixão pelo esporte (violento) é tão profunda e tão difundida, é possível que esteja arraigada em nós, não em nosso cérebro, mas em nossos genes".

Ao relacionar tudo aquilo que chamamos de pecado com herança genética, a ciência tem levado o mundo a justificar todos os tipos de pecado e a aceitar como normais comportamentos que levam os homens para longe de Deus, precipitando-os na perdição eterna. Até mesmo os homossexuais buscam no reino animal exemplos dessa prática para justificar seu comportamento corrompido. Mais do que isso, movimentos gays já se aproveitam da genética para convencer as pessoas que desejam ingressar nesse caminho de que não se trata de uma questão de escolha individual, mas de determinisno genético. Ou seja, "sou homossexual porque nasci assim".

O ativista dos direitos dos gays e neurocientista Simon Le Vay, do Salk Institute de La Jolla (Califórnia/EUA), provocou manchetes internacionais em 1991 ao declarar que uma certa área do cérebro tendia a ser menor em homossexuais masculinos do que em heterossexuais. Apesar de Le Vay ter sido cauteloso em interpretar seus resultados, ele sugeriu que, tendo em vista que essa área específica do cérebro poderia ser intimamente relacionada com o comportamento sexual, ela poderia afetar a orientação sexual. Le Vay autopsiou o cérebro de 19 homossexuais, 16 heterossexuais e 6 mulheres. A parte do cérebro que Simon Le Vay informou ser menor em homens homossexuais, conhecida como o terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior (INAH 3), é de tamanho mais próximo ao da área correspondente em cérebros de mulheres. Há muitos outros estudos examinando os fatores genéticos e biológicos relacionados com o homossexualismo".

O próprio professor Simon Le Vay faz questão de não ser definitivo em suas conclusões, mas sua atitude reflete a tendência moderna de querer justificar a homossexualidade como uma atitude determinada por fatores outros que não a rebelião humana contra Deus e seus padrões. Mas o apóstolo Paulo revela em sua epístola aos Romanos os caminhos da apostasia humana, tais caminhos são escolhidos pelo próprio homem e não determinados por uma herança animal.

Paulo diz o seguinte: "Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória de Deus incorruptível em semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Pelo que também Deus os entregou às concupiscências do seu coração, à imundícia, para desonrarem seu corpo entre si; pois mudaram a verdade de Deus pela mentira e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

Pelo que Deus abandonou as paixões infames. Porque até as mulheres mudaram o uso natural, no contrario à natureza (as mulheres mudaram, não os genes determinaram). E, semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmo a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram em ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém; estando cheios de toda iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pai e a mãe; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que a fazem” (Rm 1.18-32).

MORALISMO DARWINISTA

A Moralidade e a ética também não deixaram de sofrer influência do darwinismo. Sua teoria da Evolução é baseada na sobrevivência do mais apto, ou seja, os mais fortes e hábeis sobrevivem, os mais fracos perecem. Surge então Friederich Nietzsche transformando a biologia darwiniana em filosofia. Como disse o historiador Will Durante, “Nietzsche era filho de Darwin... Se a vida é uma luta pela existência, na qual os mais capazes sobrevivem, então a luta é a virtude máxima, e a fraqueza, o único defeito. Bom é aquilo que sobrevive, que vence; mau é aquilo que fracassa – assim pensava Nietzsche”. Logo, para esse filósofo, a moralidade cristã, exaltando a humildade, a misericórdia, o altruísmo e o amor, era na verdade fraqueza, que ia de encontro a verdadeira lei da vida, isto é, a evolução da espécie pela sobrevivência do mais apto.

Com base nesse pensamento, Nietzsche nutriu um ódio muito grande contra o cristianismo. E escreveu que “... o cristianismo foi até agora a maior desgraça da humanidade”. Segundo sua maneira de pensar “... nesta batalha que chamamos vida, precisamos não de bondade, mas de força, não de humildade, mas de orgulho, não de altruísmo, mas de inteligência resoluta; igualdade e democracia são contrarias a natureza da seleção e da sobrevivência; o poder, e não a justiça, é o verdadeiro árbitro todas as diferenças e de todos os destinos”.

Certamente ninguém foi tão longe em sua rejeição ao cristianismo. Essa visão filosófica da existência desenvolveu nesse filho e neto de pastor sentimentos tão negros e profundos que legou ao mundo literário verdadeiro tratado de guerra contra Deus. Nietzsche é o filósofo dos satanistas, constantemente citado por eles como defesa de sua absurda opção. A seguir, parte de um diálogo travado com um satanista, na qual ele apóia sua posições em um dos aforismos do filósofo:

“Dessa forma, podemos entender o satanismo como o governo do homem para si próprio, a não subordinação a nenhum poder, fim da humildade compulsória, não aceitação da mortalha de fraqueza. É por isso que os filósofos satanistas se baseiam no filósofo alemão Nietzsche. Para poder dizer não a tudo o que representa na terra o movimento ascendente da vida (a boa constituição física, a potência, a beleza, a afirmação de si mesmo) o instinto do ressentimento que aqui se tornou gênio teve de enfrentar um outro mundo, a partir do qual essa afirmação da vida aparece como o mal em si. Assim, o homem do ressentimento travesti sua impotência em bondade, a baixeza temerosa em humildade, a submissão aos que teme em obediência, o não poder vingar-se em não querer vingar-se”.

“Nietzsche vê o domínio da bondade como o falso domínio dos fracos. E podemos acreditar que Lúcifer pretende apenas libertar o homem desse domínio de fraqueza”.

Em 30 de setembro de 1888, Nietzsche concluiu seu livro intitulado “o anticristo”. Mas o anticristo não era qualquer personagem histórica por vir. O autor usava esse titulo para referir-se a si mesmo. E encerra seu livro com proposições de como acabar com o cristianismo sobre a terra: “Guerra moral contra o vício: o vício é o cristianismo”.

Vejamos algumas passagens do referido livro:

(...)
“Segunda proposição: Toda participação a um serviço religioso é um atentado à moralidade pública. Deve-se agir com mais rigor contra os protestantes do que contra os católicos...”

(...)

“Terceira proposição: O solo amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser destruído pedra por pedra, tornando-se o lugar mais infame da terra, o terror de toda posteridade. Deve-se criar cobras venenosas nesse lugar”.

(...)

“Sexta proposição: Deve-se chamar a sagrada história pelo nome que ela merece, de história maldita. Deve-se usar as palavras Deus, terra da promissão, redentor e santos como xingamentos, como apelidos de criminosos”.

Se por um lado a teoria de Darwin forneceu aos ateus uma base para negar a necessidade de um Criador para o universo, por outro proporcionou a Nietzsche, e a todos os seus futuros seguidores, os princípios de uma moralidade não-cristã, baseada no ódio, no egoísmo, na força, completamente satânica em seus fundamentos. Isto lhe parecia óbvio diante das colocações de Darwin. Sua conclusão lógica era de que, se Darwin tinha razão, o cristianismo não, e a sociedade tinha até então se erguido sobre bases insustentáveis. Ele criticava os pensadores de seu tempo, dizendo que a teoria da evolução os tornara ateus, mas eles continuavam sendo cristãos.

Com Friederich Nietzsche se cumpriu mais uma vez a descrição bíblica da corrupção da mente humana que transforma a sabedoria em loucura: “porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.21-22).

SOB SOMBRAS DO NAZISMO

Nietzsche transformou a biologia de Darwin em uma perversa filosofia. Hitler transformou a filosofia de Nietzsche em uma cruel política. Não existem dúvidas de que a filosofia nietzscheniana teve grande influência sobre o nazismo. O pensamento de Hitler era contaminado com a idéia de superioridade da raça. Destruir seis milhões de judeus era um aperfeiçoamento da raça humana. Era, como eles denominavam, uma "limpeza étnica", removendo do caminho da evolução humana elementos menos aptos que estavam impedindo essa evolução. Para Hitler, ele estava abrindo o caminho para o "super-homem", mito criado por Nietzsche uma espécie e novo estágio da evolução darwiniana.
Quase podemos ouvir os ecos da biologia de Darwin e da filosofia de Nietzsche nas palavras de Hitler ao antigo presidente do Senado nacional-socialista de Dantzig, Herman Rauschning: "Temos de criar uma técnica de despovoação. Se você me perguntar o que eu entendo por despovoação, dir-lhe-ei que prevejo a liquidação de unidades raciais, e fálo-ei, pois que vejo nela, a traços largos, a minha missão fundamental. A natureza é cruel e, por este motivo, também nós poderemos ser cruéis. Se eu mando a flor e a nata do povo alemão para uma guerra sem me lamentar, em nenhum momento, o derramamento do valioso sangue alemão no inferno da guerra, também tenho o direito de destruir milhões de homens de raças inferiores que se multiplicam como parasitas".

Ainda dentro dessa linha de pensamento, a política nazista desenvolveu o que foi chamado de "Programa Eutanásico", que visava eliminar, por meio de uma morte indolor, os doentes mentais incuráveis. Essa idéia foi proposta por Hitler em 1939 e sancionada em 1940 por lei. Cerca de trinta mil doentes mentais ficam exterminados. O alvo era de cem a cento e trinta mil pessoas. Foi difícil para o governo explicar para as famílias o desaparecimento ou a morte repentina de todos esses doentes. A polícia secreta tentava de todos os modos evitar que os comentários da população se espalhassem, mas foi impossível evitar. Mesmo assim "... As carnificinas nestes institutos foram continuadas durante anos por ordem das leis secretas promulgadas por Frick, Himmler e outros".

Aos olhos da teoria da evolução das espécies, esses atos foram apenas conseqüências biológicas da sobrevivência dos mais aptos. Aos olhos do autor de "Assim falou Zaratustra" e "O anticristo", essas decisões não eram certas nem erradas, são apenas conseqüência da vida, pois o mais forte deve realmente eliminar o mais fraco.

LIÇÕES DA HISTÓRIA

É claro que todas essas conseqüências (e muitas outras para as quais infelizmente não temos espaço suficiente aqui para apresentá-las), não eram intenções de Charles Darwin. Ele não almejava defender o ateísmo, divulgar uma moralidade satânica, justificar a morte de milhões de pessoas ou o extermínio de doentes mentais. Mas é impossível não ver suas rias como o germe de todas esse acontecimentos.

Diante de tudo isso, podemos verbas sérias conseqüências de um falso ensino. A mentira, por si só, é destruidora. Uma idéia errada pode precipitar ares em um abismo sem-fim. Uma mentira será sempre prejudicial, seja ela religiosa, filosófica ou biológica.

Não importa quantos defensores a mentira possua, quantas vezes tenha sido proclamada ou quantos argumentos a sustentam, ela corroerá e produzirá males para a nossa vida e o nosso mundo. E ponto final! Ficamos com as palavras de João: "Não vos escrevi porque não soubésseis a verdade, mas porque a sabeis, e porque nenhuma mentira vem da verdade. Estas coisas vos escrevo acerca que querem enganar" (1Jo 2.21,26).

Notas:

1 Revista Veja Edição Especial. Ano 33 nº 52 ( 27 de Dezembro de 2000 ). Artigo do Professor Jared Diamond “Por que eles perdem a cabeça?”.
2 Revista Veja Edição Especial. Ano 33 nº 52 ( 27 de Dezembro de 2000 ). Artigo do Professor Jared Diamond “Por que eles perdem a cabeça?”.
3 Revista Superinterssante: Artigo de Carl Segan “Da Flecha a Bola”. Nº 8. Ano 2.
4 Revista Chamada da Meia-Noite. Agosto nº 8. Ano 25, p. 4,5.
5 História da Filosofia. Will Durante. Coleção: Os Pensadores. Nova Cultural. 1991.
6 O Anticristo. Friederich Nietzsche. Classicos Econômicos Newton. 1992, p. 52.
7 O Anticristo. Friederich Nietzsche. Classicos Econômicos Newton. 1992, p. 52.
8 O Anticristo. Friederich Nietzsche. Classicos Econômicos Newton. 1992, p. 24.
9 O Anticristo. Friederich Nietzsche. Classicos Econômicos Newton. 1992.
10 O Julgamento de Nuremberg. Joe D. Heydecker e Johannes Leeb. Editorial Ibis Ltda. 1962. 6º edição, p. 254.
11 O Julgamento de Nuremberg. Joe D. Heydecker e Johannes Leeb. Editorial Ibis Ltda. 1962. 6º edição, p. 269,270.
Biblia Revista e Corrigida. João Ferreira de Almeida. Edição de 95. SBB.


Acervo : Fernando Silva
Site: Voltemos ao Evangelho
Por R.C. Sproul Jr.

O povo Reformado parece gostar de errar nesse ponto. Quando Paulo descreve o corpo de Cristo, cujas partes ele inclui mãos, orelhas, e assim por diante, nós somos rápidos em marcar nosso território – nós somos o cérebro da igreja. Nós somos os únicos que estão tão certamente preocupados com a nossa teologia. As grandes mentes da igreja foram dos Reformados, e alguém pode certamente dizer que a maior delas, teologicamente ou além, que já pisou nessas terras da América do Norte, foi Jonathan Edwards.
Não há dúvidas que o homem tinha um intelecto imponente. Deveríamos ter a sabedoria de sentar aos seus pés e aprender com ele. Edwards falando sobre volição é incontestavelmente um gênio. Sobre a Trindade, Edwards faz a sua cabeça girar. Edwards era uma mente titânica cujo brilho foi ofuscado apenas pelo seu ardente e apaixonado coração. Devemos abraçar a visão teológica de Edwards? É claro, certamente. Seria melhor ainda, contudo, se nós apenas pudéssemos apreciar a sua devoção de alma.
É claro que nós não aumentamos o fervor das nossas emoções ofuscando a capacidade dos nossos cérebros. Nem, contudo, iremos nutrir o fruto do Espírito se a semente da Palavra é plantada apenas no solo rochoso dos nossos cérebros em vez do solo fértil dos nossos corações. Nós certamente devemos conhecê-lo para amá-lo. Nós certamente devemos estudá-lo para conhecê-lo. Mas ninguém estudou-O mais do que o diabo, e isso não fez dele nenhum pouco bom.
Há algumas semanas, a Reformation Bible College abriu as suas portas pela primeira vez. A primeira turma eu ensinei um nome bastante pretensioso: Prolegômenos teológicos básicos. Esse título intelectualizado se traduz aproximadamente como “Introdução à Teologia Sistemática”. É o estudo que fazemos antes de começar nosso estudo.
Historicamente, tal classe começaria, logicamente, com a doutrina da revelação, explorando como Deus se revela em Sua Palavra e na natureza. Consideraria questões do cânon e várias teorias da inspiração. Nós iremos, eventualmente, chegar a essas questões importantes. Em outro semestre, nós iremos voltar as nossas atenções para o que chamamos de “TEOlogia propriamente dita”, o atual estudo da natureza de Deus e seus tributos. Apesar do assunto da futura classe, nós começaremos a primeira turma com uma obra clássico, A Santidade de Deus.
Meu medo, ao olhar para essa primeira turma, era que iriamos cair na armadilha que já capturou muitas pessoas reformadas. Eu temia que, mesmo com as verdades das gloriosas Escrituras, nós acabaríamos apenas agradando os ouvidos. Eu seria culpado de fazer cócegas nas orelhas, nas minhas aulas, se eu encorajasse os alunos a concluir, “Que pessoa inteligente eu sou” em vez de “Que evangelho glorioso que salvou um miserável como eu”. Eu queria, quando estudássemos juntos este livro, que nos olhássemos no espelho de Seu caráter e glória para que nunca percamos de vista o quão vis nós somos. Eu queria que nós entendêssemos algo do escopo da transcendência dEle caso sejamos tentados a concluir que nossos estudos nos levariam ao céu da mesma forma que a Torre de Babel. Eu temia pelos meus alunos precisamente porque eu me lembrei de como eu era quando era estudante. Que Diabo inteligente, esse que lutamos contra, que consegue transformar nosso estudo da boa teologia em um caso de orgulho.
Nós não seremos melhores até abraçarmos essa verdade óbvia: inteligência não é um dos frutos do Espírito. É claro que devemos amar a Deus com as nossas mentes. Mas devemos amar a Deus com as nossas mentes, não meramente entendê-lo. Quando o nosso conhecimento não pode atravessar a distância entre a nossa cabeça e o nosso coração, estamos sofrendo um vazio espiritual. Não nos tornaremos melhores até abraçarmos essa verdade óbvia: chegamos ao reino não como estudantes ou acadêmicos, mas como crianças.
Nós não iremos, de fato, nos tornarmos melhores até aprendermos a pararmos de perseguir a respeitabilidade acadêmica e começarmos a buscar o Reino de Deus e a sua justiça. Devemos deixar para trás todas as preocupações terrenas. Devemos parar de buscar essas coisas que os gentios buscam.
O amor, afinal, é um fruto do Espírito. Amor gera amor. Amor traz alegria. Amor concede paz. Paciência, benignidade, bondade, e domínio próprio: tudo isso brota como os belos cacho de uvas que os doze espiões israelitas viram na Terra Prometida. Nenhum desses, contudo, brota do solo árido da nossa curiosidade intelectual, muito menos da terra seca do nosso orgulho intelectual.
Edwards era um grande homem de Deus. Ele era assim, contudo, porque ele buscava ser um homem de Deus, ao invés de ser um grande homem. Seus descendentes serem senadores e governadores, professores e presidentes de universidades, não significava nada para ele. Que eles seguissem o filho do carpinteiro lá da Galileia – era o que ele esperava, orava e trabalhava por. Este é o fruto da piedade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012



EM BUSCA DA VERDADE

ACERVO : FERNANDO SILVA
EXTRAIDO DA OBRA DE : JOHN MACARTHUR ""Em Busca da Verdade""


A idéia de que a mensagem cristã deve ser mantida adaptável e ambígua parece especialmente atraente aos jovens que vivem em harmonia com a cultura e amam o espírito desta época, e não podem suportar que a verdade bíblica autoritária seja aplicada com precisão, como um corretivo para estilos de vida mundanos, mentes profanas e comportamentos ímpios. E o veneno dessa perspectiva vem sendo injetado, cada vez mais, na igreja evangélica.

Mas isso não é cristianismo autêntico. Não saber o que se crê (principalmente numa questão tão essencial ao cristianismo como o evangelho) é, por definição, um tipo de incredulidade. Recusar reconhecer e defender a verdade revelada da parte de Deus um tipo específico de incredulidade obstinada e perniciosa. Defende ambiguidade, exaltar a incerteza ou, de qualquer forma,obscurecer verdade é um modo pecaminoso de nutrir a incredulidade.

Todo cristão verdadeiro deve conhecer e amar a verdade. As Escrituras afirmam que uma característica dos "que perecem" aqueles que estão condenados à perdição por causa de sua incredulidade) é que não acolhem "o amor da verdade para serem salvos" (2 Ts 2.10). A conclusão óbvia desse texto é que o amor genuíno pela verdade está embutido na fé salvífica. Esse amor à verdade é, portanto, uma das qualidades distintivas de todo crente verdadeiro. Nas palavras de Jesus, eles conheceram a verdade, e a verdade os libertou (Jo 8.32). Numa época em que a própria idéia de verdade está sendo desprezada e atacada, até na própria igreja, onde as pessoas deveriam tratar a verdade com a máxima reverência, o sábio conselho de Salomão nunca foi tão oportuno: "Compra a verdade e não a vendas" (Pv 23.23).

A História está repleta de relatos de pessoas que preferiram a tortura ou a morte a negarem a verdade. Em gerações anteriores, o fato de alguém dar a vida por aquilo em que cria era considerado um ato heróico. Isso já não é mais assim.

Parte desse problema deve-se ao fato dos terroristas e homens-bomba suicidas terem tomado posse da idéia de "martírio" e a distorcido. Eles se chamam de "mártires," mas são assassinos suicidas, que matam as pessoas porque elas não crêem. Sua agressão violenta é, na realidade, o oposto do martírio; e as ideologias implacáveis que os impulsionam são a antítese da verdade. Nada há de heróico no que fazem, nem há qualquer nobreza naquilo que defendem. Contudo, eles são símbolos relevantes de uma tendência profundamente perturbadora que contamina a geração atual, em todo o mundo. Hoje em dia, parece que não faltam pessoas dispostas a matar em prol de uma mentira. No entanto, poucas pessoas parecem estar dispostas a falar em prol da verdade - e muito menos a morrerem por ela.

Considere os testemunhos dos mártires cristãos no decurso da História. Eles eram valentes defensores da verdade. Não eram terroristas, nem violentos, é lógico. Mas "lutavam" pela verdade; proclamando-a em meio à oposição ferrenha; vivendo de um modo que testemunhava o poder e a graça da verdade; recusando-se a renunciá-la ou abandoná-la, não importando as ameaças que fossem feitas contra eles.

Esse padrão começa na primeira geração da história da igreja, com os próprios apóstolos. Todos eles, com a possível exceção de João, morreram como mártires. O próprio João pagou caro por manter-se firme na verdade, pois foi torturado e exilado por causa de sua fé. A verdade era algo que eles amavam, em favor do que lutavam e pelo que, finalmente, morreram. E passaram esse mesmo legado à geração posterior.
Inácio e Policarpo, por exemplo, eram guerreiros da verdade cristã na antigüidade. Ambos eram amigos pessoais e discípulos do apóstolo João; portanto, viveram e ministraram quando o cris-tianismo ainda era muito recente.

A História registra que ambos entregaram sua vida voluntariamente, em vez de negarem a Cristo e desviarem-se da verdade. Inácio foi interrogado pessoalmente pelo imperador Trajano, que exigiu que ele fizesse um sacrifício público aos ídolos, como prova de sua lealdade à Roma. Inácio poderia ter poupado sua própria vida ao ceder diante daquela pressão. Alguns poderiam tentar justificar esse ato exterior, realizado sob pressão, contanto que Inácio não negasse a Cristo em seu coração. Mas, para Inácio, a verdade era mais importante do que sua própria vida. Recusou-se a sacrificar aos ídolos, e Trajano ordenou que ele fosse lançado às feras, no estádio, para a diversão das multidões pagas.

Policarpo, amigo de Inácio, procurado pelas autoridades (por-que também era conhecido como líder entre os cristãos), entregou-se de espontânea vontade, sabendo muito bem que isso lhe custaria a vida. Levado a um estádio, diante de um público sedento de sangue.

Hoje, boa parte da igreja visível parece imaginar que os cristãos devem estar numa diversão e não numa guerra. A idéia de lutar em favor da verdade doutrinária é algo bem distante do pensamento da maioria dos frequentadores e líderes  da igreja. Os cristãos contemporâneos estão determinados a fazer com que o mundo goste deles - e, é claro, nesse processo, querem também se divertir o quanto puderem. Vivem tão obcecados em fazer com que a igreja pareça "legal" para os incrédulos, que não se incomodam com o fato da doutrina dos outros ser sadia ou não.

Num ambiente como esse, a simples idéia de identificar o ensino de alguém como falso é uma sugestão desagradável e perigosamente anticultural; assim, o que se dirá do fato de "contender sinceramente" pela fé? Os cristãos "compraram" a noção de que quase nada é tão desagradável aos olhos do mundo quanto o fato de alguém demonstrar uma preocupação sincera em relação ao perigo da heresia. Afinal de contas, o mundo não quer realmente levar a verdade espiritual a sério; sendo assim, as pessoas não podem ima-ginar por que alguém faria isso.

No entanto, nos dias de hoje, a maioria das pessoas alega crer no Deus da Bíblia, mas, apesar disso, afirmam que estão incertos acerca do que venha a ser a verdade. Uma apatia sufocante a respeito do conceito de verdade domina boa parte da sociedade contemporânea incluindo um segmento cada vez maior do movimento evangélico.

Certos evangélicos "vanguardistas" agem, às vezes, como se o falecimento da certeza fosse um novo desenvolvimento intelectual sensacional, em vez de o perceberem como ele realmente é: um eco da velha incredulidade. Trata-se da descrença disfarçada com uma capa de religiosidade, buscando legitimidade, como se fosse meramente um tipo mais humilde de fé. Mas isso não é fé de modo algum. Na realidade, a recusa contemporânea em considerar qualquer verdade como certa e segura é o pior tipo de infidelidade. O dever da igreja sempre tem sido o de confrontar semelhante ceticismo e refutá-lo mediante a proclamação clara da verdade, que Deus revelou em sua Palavra. Ele nos deu uma mensagem clara, com o propósito de confrontarmos a incredulidade do mundo. Fomos chamados, ordenados e comissionados a fazer isso (1 Co 1.17-31). A fidelidade a Cristo o exige. A honra de Deus assim o requer. Não podemos ficar sentados, sem fazer nada, enquanto atitudes mundanas, revisionistas e céticas a respeito da verdade se infiltram na igreja. Não devemos aceitar tal confusão em nome do amor, do coleguismo ou da união. Precisamos nos manter firmes e lutar pela verdade — estar dispostos a morrer por ela — como os cristãos fiéis sempre têm feito.

Toda tentativa de definir a verdade em termos não bíblicos tem falhado. Isso acontece porque Deus é a origem de tudo o que existe (Rm 11.36). Somente Ele define e delimita aquilo que é verdadeiro.

Ele quem revela toda a verdade. Todas as verdades reveladas na natureza são de sua autoria (Si 19.1-6); e algumas dessas verdades são a auto-revelação do próprio Deus (Rm 1.20). Ele nos deu mente e consciência para percebermos a verdade e entendermos o certo e o errado. Criou-nos com um entendimento fundamental de sua lei, escrita em nosso coração (Rm 2.14-15). E, acima de tudo, deu-nos a verdade perfeita e infalível das Escrituras (SI 19.7-11), a qual é uma revelação suficiente para tudo o que diz respeito à vida e à  piedade (2 Tm 3.15-17; 2 Pe 1.3), a fim de conduzir-nos a Ele mesmo como nosso Salvador e Senhor.

Finalmente, Deus enviou a Cristo, a incorporação da própria verdade, como o clímax da revelação divina (Hb 1.1-3). E a principal razão para tudo isso era revelar-se a todas as suas criaturas (Ez 38.23). Toda a verdade, portanto, começa com a verdade concernente a Deus: quem Ele é; o que a sua mente sabe; o que a sua santidade envolve; o que a sua vontade aprova, e assim por diante. Em outras palavras, toda a verdade é determinada e devidamente explicada pelo Ser de Deus. Por conseguinte, toda noção de sua inexistência é, pela própria definição, inverdade. É precisamente isso que a Bíblia ensina: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus" (SI 14.1; 53.1).

As ramificações de toda a verdade que começa em Deus são profundas. Voltando a uma consideração anterior: essa é a razão por que, uma vez que alguém negue a Deus, a coerência obriga-o, enfim, a negar toda a verdade. Negar a existência de Deus remove, num só instante, toda justificativa para qualquer tipo de conhecimento. Conforme dizem as Escrituras: "O temor do SENHOR é o princípio do saber" (Pv 1.7).

claro que a existência da verdade absoluta e seu relacionamento inseparável com a pessoa de Deus constituem o princípio mais essencial de todo o cristianismo verdadeiramente bíblico. Falo com franqueza; se você é uma pessoa que questiona se a verdade é realmente importante, peço-lhe que não chame o seu sistema de crenças de cristianismo", porque ele não o é.

O fato de que os crentes de nossa geração precisem ser lem-brados dessas coisas é estarrecedor. 

        COMO A VERDADE ESTÁ SENDO ATACADA NA IGREJA HOJE?

A clareza e a suficiência das Escrituras, o estado de perdição da humanidade não redimida e a justiça de Deus em condenar os pecadores são convicções antigas em todas as principais tradições do cristianismo histórico. 

Acontece, também, que estamos vivendo numa geração em que supostos cristãos não sentem o menor interesse por esse conflito e contenda. Multidões de cristãos subnutridos nas Escrituras e na doutrina chegaram a pensar que a controvérsia é algo que sempre deva ser evitado, custe o que custar. Infelizmente, esse é o exemplo que muitos pastores fracos têm lhes dado.

Na igreja, nunca devemos apreciar ou nos envolver em controvérsia e conflito, sem motivos suficientes. Mas, em cada geração, a batalha pela verdade tem sido inevitável, porque os inimigos da verdade são implacáveis. A verdade está sempre sob ataque. E, na realidade, é um pecado não lutar quando verdades vitais estão sendo atacadas.

Isso é uma realidade, mesmo quando, às vezes, a luta resulta em conflito dentro da comunidade visível dos cristãos professos. De fato, sempre que os inimigos da verdade evangélica conseguem se infiltrar na igreja, os crentes fiéis são obrigados a batalhar contra eles. Essa é, certamente, a situação hoje, assim como tem sido desde os tempos apostólicos.

Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.

Segue-se, aqui, uma definição singela, extraída daquilo que a Bíblia ensina: a verdade é aquilo que é consistente com a mente, a vontade, o caráter, a glória e o ser de Deus. Sendo mais preciso: a verdade é a auto-expressão de Deus. Esse é o significado bíblico de verdade; é a definição que emprego em todas as partes deste livro. Posto que a definição da verdade flui de Deus, a verdade é teológica.

Á verdade é também onlológíca - um modo requintado de expressar que a verdade é a maneira como as coisas realmente são.

A realidade é o que é porque Deus declarou que ela deveria ser assim e a fez dessa forma. Por isso, Deus é o autor, a fonte, o determinador, o governador, o árbitro, o padrão máximo e o derradeiro juiz de toda a verdade. O Antigo Testamento refere-se ao Todo-Poderoso como o "Deus da verdade" (Dt 32.4; SI 31.5; Is 65.16). Quando Jesus disse a respeito de Si mesmo: "Eu sou... a verdade" (Jo 14.6, ênfase acrescentada), Ele estava fazendo uma declaração profunda a respeito de sua própria divindade. Também deixou claro que toda verdade, em última análise, deve ser definida em termos de Deus e de sua glória eterna. Afinal de contas, Jesus é "o resplendor da glória [de Deus] e a expressão exata do seu Ser" (Hb 1.3). Ele é a verdade encarnada a expressão perfeita de Deus e, portanto, a corporificação absoluta de tudo o que é a verdade.

Jesus também disse que a Palavra escrita de Deus é a verdade. Ela não somente contém pepitas da verdade; ela é a verdade pura, imutável e inviolável que (segundo Jesus) "não pode falhar" (Jo 10.35). Jesus, orando ao seu Pai celestial, em favor dos seus discípulos, disse: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (Jo 17.17). Além disso, a Palavra de Deus é a verdade eterna, "a qual vive e é permanente" (1 Pe 1.23).

É lógico que não pode existir qualquer discordância ou diferença de opinião entre a Palavra escrita de Deus (as Escrituras) e a Palavra encarnada de Deus (Jesus). Em primeiro lugar, a verdade, por sua própria natureza, não pode contradizer a si mesma. Em segundo lugar, as Escrituras são chamadas de "palavra de Cristo" (Cl 3.16). E a mensagem dEle, a auto-expressão dEle. Em outras palavras, a verdade de Cristo e a verdade da Bíblia são do mesmíssimo caráter. Estão em perfeito acordo, em todos os aspectos. Ambas são igualmente verdadeiras. Deus se revelou à humanidade por meio das Escrituras e por meio do seu Filho. Ambos expressam com perfeição aquilo que a verdade é.

Uma conclusão óbvia daquilo que estou dizendo é que, à parte de Deus, a verdade não significa coisa alguma. A verdade não pode ser explicada, reconhecida, entendida ou definida sem que Deus seja a sua fonte. Visto que somente Ele é eterno e auto-existente, e somente Ele é o Criador de todas as coisas, Ele é a fonte de toda a verdade.

Se você refletir sobre esse assunto com uma dose mínima de sobriedade, logo perceberá que até as distinções morais mais fundamentais — o bem e o mal, o certo e o errado, a beleza e a feiúra, a honra e a desonra — não têm qualquer possibilidade de possuir sentido verdadeiro ou permanente à parte de Deus. A razão disso é que a verdade e o conhecimento, por si mesmos, simplesmente não possuem uma relevância coerente à parte de uma origem fixa, ou seja, Deus. Como poderiam ser relevantes? Deus é, em Si mesmo, a própria definição da verdade. Qualquer reivindicação de uma verdade à parte de Deus é absurda.


          A GRANDE "MUDANÇA DE PARADIGMA"


Em tempos recentes, muitos intelectuais incrédulos têm reconhecido que a corrente está quebrada e resolveram que o culpado disso é o fato de que qualquer busca pela verdade é absurda. Com efeito, já abandonaram essa busca como se fosse algo totalmente fútil. Portanto, o mundo das idéias humanas está atualmente num estado grave de fluxo. Em quase todos os níveis da sociedade, estamos testemunhando uma mudança de paradigmas profundamente radical uma revisão, em grande escala, na maneira como as pes-soas pensam a respeito da própria verdade.

Infelizmente, em vez de reconhecer aquilo que a verdade exige e render-se à necessidade da crença no Deus da verdade, o pensamento ocidental contemporâneo já cogitou maneiras de livrar totalmente a filosofia humana de qualquer noção coerente acerca da verdade. O conceito de verdade está sofrendo ataques pesados na comunidade filosófica, no mundo acadêmico e no âmbito da religião no mundo. O modo como as pessoas pensam a respeito da verdade está sendo totalmente renovado, e o vocabulário do conhecimento humano, completamente redefinido. Evidentemente, o propósito é lançar no esquecimento toda noção de verdade.

Consequentemente, os novos modos de pensar têm sido apelidados, coletivamente, de pós-modernos.

Se você tem prestado atenção ao mundo ao nosso redor, provavelmente já deva ter ouvido muito essa expressão. O termo pós-modernismo tem sido usado cada vez mais, desde os anos 1980, para descrever várias tendências populares na arquitetura, na arte, na literatura, na história, na cultura e na religião. Não é um termo de explicação fácil, porque descreve um modo de pensar que desafia (e até mesmo rejeita) qualquer definição clara.

De modo geral, o pós-modernismo é marcado por uma tendência de repudiar a possibilidade de qualquer conhecimento seguro e sólido acerca da verdade. O pós-modernismo sugere que, se a verdade objetiva existe, ela não pode ser conhecida de modo objetivo ou com algum grau de certeza; porque (segundo os pós-modernistas) a subjetividade da mente humana torna impossível o conhecimento da verdade objetiva. Portanto, é inútil pensar na verdade em termos objetivos. A objetividade é uma ilusão. Nada é certo, e a pessoa sensata nunca falará com convicção demasiada a respeito de coisa alguma. Fortes convicções no tocante a qualquer aspecto da verdade são reputadas como supremamente arrogantes e desesperadamente ingênuas. Cada pessoa tem o direito à sua própria verdade.

Por conseguinte, o pós-modernismo não possui uma agenda positiva para declarar que algo é verdadeiro ou bom. Talvez você já tenha notado que somente os crimes mais hediondos ainda são considerados maus. Na realidade, existem muitas pessoas hoje que estão dispostas a debater se algo é "mal"; por essa razão, essa linguagem está desaparecendo rapidamente do discurso público. Isso acontece porque a própria noção do mal não se encaixa no esquema pós-moderno das coisas. Se não pudermos ter nada como certo, como julgaremos que uma coisa é má?

Por essa razão, o único objetivo e atividade singular do pós-modernismo é a desconstrução sistemática de qualquer reivindicação da verdade. As principais ferramentas que têm sido usadas para isso são: o relativismo, o subjetivismo, a negação de todo dogma, a disse cação e o aniquilamento de toda definição clara, o questionamento implacável de todo axioma, a exaltação indevida do mistério e do paradoxo, o exagero deliberado de toda ambigüidade e, acima de tudo, o cultivo da incerteza a respeito de tudo.

Essas opiniões também estão se infiltrando na igreja. Em alguns círculos da igreja visível, hoje, o cinismo é quase considerado como a mais esplêndida de todas a virtudes. Comecei este livro com um excelente exemplo desse cinismo, visto no chamado movimento da Igreja Emergente. Um tom implacável de inquietação pós-modernista a respeito da certeza excessiva permeia todo esse movimento. Não é de se admirar: a Igreja Emergente surgiu como um esforço deliberado para tornar o cristianismo mais apropriado a uma cultura pós-moderna. Os cristãos emergentes estão determinados a adaptar a fé cristã, a estrutura da igreja, a linguagem da fé e até a mensagem do evangelho à retórica e às idéias pós-modernistas.

O pós-modernismo é um tema importante na literatura da Igreja Emergente. Várias vozes da liderança do movimento têm sugerido que o pós-modernismo é algo que a igreja deva abraçar  e adotar. Outros talvez sejam mais hesitantes quanto a endossar completamente o pós-modernismo, mas insistem em que os cristãos devem, pelo menos, começar a falar a linguagem pós-moderna, se quisermos alcançar uma geração pós-moderna. Isso, dizem eles, exigirá uma reorganização da mensagem que apresentamos ao mundo, além de uma remodelagem dos meios que usamos para pregá-la. Algumas pessoas desse movimento têm questionado abertamente se existe mesmo um papel legítimo para a pregação numa cultura pós-moderna. 0 "diálogo" é o método preferido de comunicação. E, de acordo com isso, algumas congregações de estilo emergente acabaram totalmente com os pastores e os substituíram por "narradores". Outras substituíram o sermão por um diálogo livre e aberto, no qual ninguém desempenha um papel de liderança. Por motivos óbvios, dizer com autoridade "assim diz o SENHOR" não é algo bem acolhido nesse ambiente.

A mensagem do evangelho, em todos os fatos que a constituem, é uma proclamação clara, específica, confiante e autorizada de que Jesus é Senhor, e de que Ele dá uma vida eterna e abundante a todos os que crêem. Nós, que conhecemos verdadeiramente a Cristo e recebemos aquela dádiva da vida eterna, também recebemos da parte dEle uma comissão clara e específica para transmitir, com ousadia, a mensagem do evangelho, como seus embaixadores. Se não demonstrarmos igualmente clareza e nitidez em nossa proclamação da mensagem, não seremos bons embaixadores.

Mas não somos meros embaixadores. Somos, ao mesmo tempo, soldados comissionados a guerrear em favor da defesa e disseminação da verdade, em face aos ataques constantes contra ela. Somos embaixadores com uma mensagem de boas-novas para as pessoas que andam em trevas e vivem na região da sombra da morte (Is 9.2). E somos soldados — com ordens para destruir fortalezas ideológicas e derrubar as mentiras e enganos engendrados pelas forças do mal (2 Co 10.3-5; 2 Tm 2.2-4).

Observe atentamente: nossa tarefa como embaixadores é levar as boas-novas às pessoas. Nossa missão como soldados é destruir as idéias falsas. Devemos manter esses objetivos no seu devido lugar; não temos o direito de declarar guerra contra as pessoas, propriamente ditas, nem de entrar em relacionamentos diplomáticos com idéias anti cristãs. Nossa guerra não é contra a carne e o sangue (Ef 6.12); nosso dever como embaixadores não nos permite transigir com qualquer tipo de filosofia humana, engano religioso ou outro tipo de mentira, nem nos associar com algumas dessas coisas (Cl 2.8).

Se parece difícil manter essas duas tarefas em equilíbrio e na perspectiva adequada, isso acontece porque elas são realmente difíceis.

Judas certamente entendeu isso. O Espírito Santo o inspirou a escrever sua breve epístola às pessoas que estavam lutando com essas mesmas questões. Contudo, ele as exortou a batalharem diligentemente pela fé, contra toda falsidade, ao mesmo tempo em que faziam tudo quanto lhes era possível para livrar as almas da destruição: arrebatando-as "do fogo... detestando até a roupa contaminada pela carne" (Jd 23).
Somos, portanto, embaixadores e soldados; procuramos alcançar os pecadores com a verdade, ao mesmo tempo em que envidamos todos os esforços para destruir as mentiras e outras formas de mal, que os mantêm na escravidão mortífera. Esse é um resumo perfeito do dever de todo cristão na guerra pela verdade.

Martinho Lutero, aquele nobre soldado do evangelho, lançou esse desafio diante de todos os cristãos, de todas as gerações que o sucederam, ao dizer:
Se, com a voz mais elevada e a exposição mais nítida, eu professar toda porção da verdade de Deus, e não professar exatamente aquele pormenor de que o mundo e o Diabo estão nos atacando naquele momento, não estou confessando a Cristo, ainda que esteja professando-0 com ousadia. Ali, onde a batalha é intensa, a lealdade do soldado é provada; e, ficar firme em todos os demais pontos do campo de batalha, será mera fuga e vergonha, se o soldado falhar naquele pormenor.

Sola Scriptura

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Valdemiro Santiago disse o seguinte em um de seus estudos bíblicos: 

“Muita gente pela tradição da religião, não entende a historia de Jesus. Alguns falam de natal, mas ninguém sabe o dia exato em que Jesus Cristo nasceu. Segundo que Jesus já existia muito antes de tudo. Ele é a imagem do Deus invisível, a encarnação do verbo.Mas ele não é sempiterno, é eterno. O pai que é Deus é sempiterno, aquele que antes dele nunca existiu como ele, nem existirá depois dele, sempre existiu e sempre existirá. A primeira obra dele foi Jesus Cristo...” (Citado em seu site no dia 14/02/2012 no link: www.impd.org.br/portal/mensagens_impd.php?id=49)
Você sabe que ensinamento é esse que Valdemiro está transmitindo ao afirmar que Jesus é a primeira criação ou obra de Deus? Sim, é a encanecida heresia do Arianismo. Provavelmente, devido à deficiência teológica desse Apóstolo, ele nem deve saber quem foi Ário, mas o bojo doutrinário da afirmação dele é totalmente contrário aos ensinos da teologia bíblica protestante. 

Mas afinal de contas o que seria o arianismo e por que é tão pernicioso? Tal ensino é uma heresia que foi condenada pela igreja desde os primeiros séculos de fé cristã. O contexto histórico do arianismo gira em torno de um homem chamado Ário. Ele ensinou que Deus Pai era maior do que Cristo, e que Jesus teria sido a primeira criação de Deus. Assim, Jesus não era Deus como o Pai, mas sim a primeira criação de Deus, tal como os anjos – um mero ser criado. Hoje esta cosmovisão teológica é muito bem trabalhada pela seita Jeovista conhecida como Testemunhas de Jeová. 

Para saber mais sobre a problemática de tamanha heresia, o CACP desenvolveu vários artigos mostrando os erros da doutrina ariana.

Por isso que a palavra de Deus nos adverte com muita procedência e de maneira auspiciosa:

“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo (1 João 4:1)”.

Tomem cuidado com tais movimentos. Não se impressione pelo fato de em tal lugar haver supostamente muitos milagres, mas observe se a doutrina bíblia está sendo enfatizada com verdade e critério, pois disse Jesus:

Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. (Mt 7.20-24)



Acervo: Fernando Silva
Autor : Prof. João Flávio Martinez
Extraido Site : www.cacp.org.br





Sobre o Véu


Neste comentário, procuramos refutar, algumas falácias concernentes ao uso do véu e o corte de cabelo, no contexto de Corinto.

Paulo enfatiza algumas determinações alusivas ao assunto, como princípios morais e eternos ou como princípios circunstanciais? Teríamos algum respaldo, à luz da Hermenêutica Bíblica, para determinar o uso do véu para os dias atuais? Seria uma falta de decência, das mulheres cristãs a não utilização do véu?

Porque as mulheres judaicas usavam o véu? E as Helênicas não usavam? E porque era proibido as mulheres contemporâneas do Apóstolo Paulo de terem os cabelos rapados?

TRADUÇÃO LITERAL

“Toda mulher orando ou profetizando descoberta com a cabeça desonra a cabeça dela;”

EXEGESE TEOLÓGICA


Neste trecho o vocábulo mais discutido é sobre a questão do uso do véu; o que o apóstolo Paulo quis nos ensinar? Seria este um ensino de valores eternos ou circunstanciais? E qual a utilização do uso do véu hoje?

• Primeiro: À luz do contexto. O escritor fala sobre uma hierarquia na criação I Co 11:3, ordem na criação I Co 11:7-9.

• Segundo: Discorrendo no contexto cultural, observamos que, a cidade de Corinto era estrategicamente estabelecida; foi uma autêntica metrópole, abrigando judeus, gregos e romanos. Portanto, havia uma miscigenação de raças e de culturas.

A cidade fornecia mais divertimento e opções culturais que outros portos menos importantes. Lá ficava o único anfiteatro (uma construção romana) da Grécia com capacidade para mais de 20.000 espectadores. O grande templo de Afrodite, sendo a deusa identificada com a lascívia e com a prostituição cultural, seu templo abrigava mais de 1.000 prostitutas.

A cultura de Corinto não era judaica, mas grega e fortemente influenciada pelos viajantes romanos que lá passavam. Portanto eles se vestiam, comiam e se portavam diferentes dos judeus.

• Terceiro: O uso do véu.

Para os judeus era um costume antigo, que representava a decência das mulheres – Submissão das mulheres.

• Quarto: No caso de Corinto, temos um costume das prostitutas( sacerdotisas do templo de Afrodite ) terem a cabeças rapada, e também as mulheres gregas que não se prostituíam tinham o cabelo comprido, porém não usavam o véu. Então concluímos; numa cultura a não utilização do véu poderia ser motivo para o divórcio, também poderia ser uma forma de lamento, ter a cabeça rapada ou indicar uma mulher culpada de adultério.

• As sacerdotisas do templo de Afrodite raspavam a cabeça e conforme um costume local, elas teriam que se entregar a algum desconhecido sexualmente, uma vez por ano ( havia em Corinto mil prostitutas – sacerdotisas de Afrodite ).

• Quinto: Enfatizamos, que Paulo não ensinava nesta passagem bíblica, princípios morais eternos, e assim circunstanciais, ou seja, cultural. O ensino era que, por uma questão de coerência, aqueles que quisessem manter a tradição do uso do véu hebraico deveriam também preservar o uso dos cabelos compridos presentes na cultura helênica.

Segundo o escritor Ricardo Gondim “Isto porque, da mesma forma que uma mulher sem o véu era considerada prostituta pelos judeus, uma mulher com a cabeça rapada era tida como meretriz pelos gregos”.

A decência nesta questão não seria o comprimento do cabelo, nem tão pouco o uso do véu. E sim a decência com que a mulher se apresentava na igreja e na sociedade.

É possível, encontrar ainda hoje, em pleno século XXI, seguimentos religiosos diversos que respaldando-se na sua cultura,cosmovisão religiosa ou na interpretação de trechos bíblicos sem considerar o seu contexto, criam normas,regulamentos para legitimar nos seus seguidores mecânismos de controle.Doravante,é preciso pois,respeitar os costumes de cada seguimento religioso,ou seja, aqueles que proibem por exemplo: o corte de cabelo para as mulheres, ou o uso de calças compridas, sem contudo condicionar ou até mesmo atrelar a salvação de uma alma a observância irrestrita aos mesmos. Pois, conforme o conceito paulino “não vem das obras para que ninguém se glorie”.

Segundo a Hermenêutica Bíblica, devemos interpretar o texto dentro dos contextos: Histórico, geográfico, sintático, gramátical, lexicológico, teológico e doutrinal. Portanto,a lei geral diz: “Que um texto fora do seu contexto, servi de pretexto”.

Não há qualquer restrição bíblica, hoje quanto ao corte de cabelo ou a proibição do uso de calças comprindas para mulheres. Deve-se respeitar o contexto religioso e cultural que o seguidor(a) estão inseridos. Entretando, salientando sobretudo que, nenhuma tradição, norma cultural está acima das Escrituras sagradas.


ACERVO: FERNANDO SILVA
EXTRAIDO CACP - SITE : WWW.CACP.OG.BR


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Teologia Reformada - Defesa do Evangelho: Teologia Relacional ou do Processo -

Teologia Reformada - Defesa do Evangelho: Teologia Relacional ou do Processo -: Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelical...

Teologia Relacional ou do Processo -

Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelicalismo havia entrado em colapso no Brasil: a sua incapacidade de deter a proliferação de teologias oriundas de uma visão pragmática e mercantilista de igreja, no caso, a teologia da prosperidade. 

Fica cada vez mais claro que os evangélicos estão atualmente numa crise muito maior, a começar pela dificuldade – para não falar da impossibilidade – de ao menos se definir hoje o que é ser evangélico. 

Até pouco tempo, “evangélico” indicava vagamente aqueles protestantes de entre todas as denominações – presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos, luteranos e pentecostais, entre outros, que consideravam a Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e infalível, que eram conservadores no culto e nos padrões morais, e que tinham visão missionária. 

Hoje, no Brasil, o termo não tem mais essa conotação. Ele tem sido usado para se referir a todos os que estão dentro do cristianismo em geral e que não são católicos romanos: protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, igrejas emergentes, comunidades dos mais variados tipos, etc. 

É evidente a crise gigantesca em que os evangélicos se encontram: a falta de rumos teológicos definidos, a multiplicidade de teologias divergentes, a falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual, a derrocada doutrinária e moral de líderes que um dia foram reconhecidos como referência, o surgimentos de líderes totalitários que se auto-denominam pastores, bispos e apóstolos. 

A conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico, a falta de padrões morais pelos quais ao menos exercer a disciplina eclesiástica, a depreciação da doutrina, a mercantilização de várias editoras evangélicas que passaram a publicar livros de linha não evangélica, e o surgimento das chamadas igrejas emergentes. A lista é muito maior e falta espaço nesse post. 

Recentemente um amigo meu, respeitado professor de teologia, me disse que o evangelicalismo brasileiro está na UTI. Concordo com ele. A crise, contudo, tem suas raízes na própria natureza do evangelicalismo, desde o seu nascedouro. 

Há opiniões divergentes sobre quando o moderno evangelicalismo nasceu. Aqui, adoto a opinião de que ele nasceu, como movimento, nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. Era uma ala dentro do movimento fundamentalista que desejava preservar os pontos básicos da fé (veja meu post sobre Fundamentalismo), mas que não compartilhava do espírito separatista e exclusivista da primeira geração de fundamentalistas. 

A princípio chamado de “neo-fundamentalismo”, o evangelicalismo entendia que deveria procurar uma interação maior com questões sociais e, acima de tudo, obter respeitabilidade acadêmica mediante o diálogo com a ciência e com outras linhas dentro da cristandade, sem abrir mão dos “fundamentos”. 

Eles queriam se livrar da pecha de intransigentes, fechados, bitolados e obscurantistas, ao mesmo tempo em que mantinham doutrinas como a inerrância das Escrituras, a crença em milagres, a morte vicária de Cristo, sua divindade e sua ressurreição de entre os mortos. Eram, por assim dizer, fundamentalistas esclarecidos, que queriam ser reconhecidos academicamente, acima de tudo. 

O que aconteceu para o evangelicalismo chegasse ao ponto crítico em que se encontra hoje? Tenho algumas idéias que coloco em seguida. 

1. O diálogo com católicos, liberais, pentecostais e outras linhas sem que os pressupostos doutrinários tivessem sido traçados com clareza. Acredito que podemos dialogar e aprender com quem não é reformado. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de pressupostos claros e com fronteiras claras. Hoje, os evangélicos têm dificuldades em delinear as fronteiras do verdadeiro cristianismo e de manter as portas fechadas para heresias. 

2. A adoção do não-exclusivismo como princípio. Ao fazer isso, os evangélicos começaram a abrir a porta para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral, sem que tivessem qualquer instrumento poderoso o suficiente para ao menos identificar o que estivesse em desacordo com os pontos cruciais. 

3. O abandono gradual da aderência a esses pontos cruciais com o objetivo de alargar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade. Com a redução cada vez maior do que era básico, ficou cada vez mais ampla a definição de evangélico, a ponto de perder em grande parte seu significado original. 

4. O abandono da confessionalidade, dos grandes credos e confissões do passado, que moldaram a fé histórica da Igreja com sua interpretação das Escrituras. Não basta dizer que a Bíblia não tem erros. Arminianos, pelagianos, socinianos, unitários, eteroteólogos, neopentecostais – todos afirmarão isso. 

O problema está na interpretação que fazem dessa Bíblia inerrante. Ao jogar fora séculos de tradição interpretativa e teológica, os evangélicos ficaram vulneráveis a toda nova interpretação, como a teologia relacional, a teologia da prosperidade, a nova perspectiva sobre Paulo, etc. 

5. A mudança de uma orientação teológica mais agostiniana e reformada para uma orientação mais arminiana. Isso possibilitou a entrada no meio evangélico de teologias como a teologia relacional, que é filhote do arminianismo. Permitiu também a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência, fruto do reavivalismo pelagiano de Charles Finney. (Nota do CACP*: Aqui o autor critica a exacerbação do arminianismo... entendemos que tanto o radicalismo arminiano como o calvinista é contraproducente)

Essa mudança também trouxe a depreciação da doutrina em favor do pragmatismo, e também o antropocentrismo no culto, na igreja e na missão, tudo isso produto da visão arminiana da centralidade do homem. 

Mas talvez o pior de tudo foi a perda da cosmovisão reformada, que serviria de base para uma visão abrangente da cultura, ciência e sociedade, a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem isso, o evangelicalismo mais e mais tem se inclinado a ações isoladas e fragmentadas na área social e política, às vezes sem conexão com a visão cristã de mundo. 

6. Por fim, a busca de respeitabilidade acadêmica, não somente da parte dos demais cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Essa busca, que por vezes tem esquecido que o opróbrio da cruz é mais aceitável diante de Deus do que o louvor humano, acabou fazendo com que o evangelicalismo, em muitos lugares, submetesse suas instituições teológicas aos padrões educacionais do Estado e das universidades. 

Padrões esses comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo, em que as Escrituras e o cristianismo são estudados de uma perspectiva não cristã. Abriu-se a porta para o velho liberalismo. 

Não há saída fácil para essa crise. Contudo, vejo a fé reformada como uma alternativa possível e viável para a igreja evangélica brasileira, desde que se mantenha fiel às grandes doutrinas da graça e aos lemas da Reforma, e que faça certo aquilo que os evangélicos não foram capazes de fazer: 

(1) dialogar e interagir com a diversidade delineando com clareza as fronteiras do cristianismo; 

(2) abandonar o inclusivismo generalizado e adotar um exclusivismo inteligente e sensível; 

(3) voltar a valorizar a doutrina, especialmente os pontos fundamentais da fé cristã expressos nos credos e confissões, que moldaram os inícios do movimento evangélico.

Talvez assim possamos delinear com mais clareza os contornos da face evangélica em nosso país. 

Fernando Silva - Acervo : Extraido site: www.cacp.org.br
Augustus Nicodemus Lopes é pastor presbiteriano. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (Recife), mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em Interpretação Bíblica pelo Westminster Theological Seminary (EUA), com estudos no Seminário Reformado de Kampen (Holanda). É chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro.